Quem foi João Batista? De onde ele era?
Como o seu nome pôde atravessar os séculos e ser lembrado ainda hoje? Qual a
importância dos feitos de João para nós hoje? Esses e outros questionamentos serão respondidos ao longo deste post.
Sem dúvida, o nome do profeta João
Batista é bem conhecido no Ocidente. Quem não conhece alguém com esse nome? No
entanto, os seus feitos não são tão conhecidos quanto o seu nome.
João Batista, filho do sacerdote
Zacarias e de Isabel, morava em uma região chamada Judeia, controlada pelo
Império Romano. Viveu na época de Jesus Cristo (século I), porém nasceu antes
dele. Uma diferença de meses. Alguns estudiosos sugerem até que eles poderiam
ser primos. Mas o certo mesmo é que a mãe de Jesus conhecia muito bem a mãe de
João, inclusive, Maria visitou Isabel quando ambas estavam grávidas.
O surpreendente nessa visita é que
quando Isabel ouviu a voz de Maria, no mesmo instante, João se agitou de tal
forma na barriga que a mãe ficou muito alegre. Portanto, desde quando Jesus e
João estavam na barriga da mãe, já tinham uma ligação muito forte. Mas o que
João tem a ver com Jesus? Respondo depois.
Tanto João quanto Jesus eram judeus,
mas de tribos diferentes. João pertencia a uma família sacerdotal, da tribo de
Levi, e Jesus pertencia à tribo de Judá. Seguindo a tradição familiar,
João deveria ser preparado para ser um sacerdote, como seu pai. Um sacerdote
tinha muito prestígio diante da sociedade judaica naquela época. João se tornou
sim um sacerdote, mas não segundo a tradição da época. Talvez por causa da missão
que Deus havia preparado pra ele, João seguiu um caminho diferente.
Morou no deserto, alimentava-se de
gafanhoto e mel silvestre, não tomava bebida forte, não era visto em baquetes.
Apesar de ter a simpatia do povo e até de governadores, como Herodes, João não
frequentava palácios e provavelmente não tinha posses.
Esse estilo de vida que João praticava era
comum entre alguns judeus, principalmente aqueles que pertenciam a um grupo
chamado de essênios, que não se misturavam com os demais judeus e tinham uma
vida ascética. Apesar das práticas de João se assemelhar às desse grupo, ele
não vivia isolado, uma vez que constantemente falava da Palavra de Deus junto
ao povo.
Os registros históricos dos evangelhos
não revelam com quantos anos João começou a exercer o seu ministério. O fato é que
esses registros dizem apenas que João começou a pregar e batizar às margens do
Rio Jordão, e que muitas pessoas vinham até ele ouvir a mensagem que pregava.
João ficou tão famoso por causa das suas pregações e do seu batismo que logo
ficou conhecido como João Batista, ou seja, João aquele que batiza. Portanto, a
palavra "Batista" é derivada de batismo.
As
palavras de João eram duras, e não agradava a todas as pessoas. Ele dizia que elas
tinham de se arrepender dos seus pecados por que era chegado o Reino de Deus.
João também criticava muitas coisas erradas daquela época. Criticou duramente o
governador da Galileia, Herodes, e por isso acabou preso. A
mensagem principal de João. no entanto, era anunciar que o governo do Messias estava
começando. Ele sabia muito bem quem era o Messias: Jesus.
Mas
quem informou a João que Jesus, seu conhecido e provavelmente amigo de
infância, era o Messias? As escrituras antigas dos Judeus, conhecidas hoje por
Velho Testamento, falavam da vinda de um Messias, porém não diziam que ele era.
Só havia uma maneira de João obter essa informação e acreditar nela: através do
Espírito Santo.
Acredito
que o Espírito Santo revelou a João não apenas quem era o messias, mas também como
ele deveria anunciar para as pessoas que Jesus era o Messias, o Cristo de Deus.
Por isso que João não trilhou o mesmo caminho que seu pai. Ele tinha uma
revelação especial que nenhum homem teve até aquele momento.
Mas
por que Deus precisava de uma homem pra falar sobre seu Filho? Jesus era
poderoso. Muito mais do que João. Jesus podia atrair as multidões por conta de
seus milagres e grande conhecimento.
A atuação de João Batista cumpria uma
antiga profecia registrada no livro de um profeta judeu chamado Malaquias
(4:5-6). Segundo a profecia, ante da aparição do messias, Deus enviaria um grande
profeta para prepara o caminho. João conhecia muito bem essa profecia, assim
como muitos judeus também a conhecia, no entanto, a João foi revelado que ele
era esse profeta. João também creditava a ele uma profecia registrada no livro
do profeta Isaias (40:3) que dizia Voz do
que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor; endireitai no ermo vereda a nosso Deus. Ele considerava a sim mesmo como essa “voz”
relata na profecia. O Próprio Jesus também afirmou que João era essa “voz que
clama” mencionada na profecia e afirmou categoricamente que João era profeta. O
autor do livro de Mateus (11:11) registrou a seguinte declaração de Jesus a
respeito de João: entre os nascidos de
mulher não surgiu ninguém maior do que João Batista.
Outro
fato importante que devemos considerar era que as multidões que ouviam João
acreditavam que ele era profeta e que as palavras dele eram palavras dadas por
Deus. Se Jesus dissesse que era profeta não teria tanta credibilidade quanto
João, porque Jesus não era da família sacerdotal, mas João o era.
Quando
João apontava pra Jesus e dizia que ele era o messias os judeus acreditavam,
porque acreditavam que João era profeta. Não é por acaso que os primeiros
discípulos de Jesus eram inicialmente discípulos de João, e passaram a seguir
Jesus por que João declarou que ele é o
cordeiro que tira o pecado do mundo, portanto, messias chamado Cristo.
Não
se sabe ao certo quanto tempo durou a missão de João. Quando ele foi preso Jesus
já estava bem conhecido na região da Judeia e da Galileia, que era onde João pregava. Ele
chegou a enviar dois de seus discípulos para interrogar Jesus se ele era de fato o
Messias. Jesus provou que era o messias ao fazer vários milagres. Essa foi a
resposta que os discípulos de João levaram: que Jesus estava fazendo muitos
milagres e sinais; somentente messias, portanto, tinha tal autoridade.
João
Batista foi morto por que falava a verdade, doa a quem doesse. Não fazia discurso
leve para uns e outros não. O próprio governador da Galiléia, Herodes, foi
acusado por João de estar cometendo um grave pecado: casar-se com a mulher do
seu irmão, Felipe.
Não
satisfeita com a denúncia, Herodias – a tal mulher –, tramou o assassinato de
João no dia em que o governador promoveu uma festa em comemoração de seu aniversário.
O escrito (mateus 14) que registrou o ocorrido declara que
a filha de Herodias dançou para
ele e para os seus convidados e agradou muito a Herodes. Herodes, então, prometeu-lhe com juramento
dar-lhe qualquer coisa que ela pedisse. Mas a moça, instigada por sua mãe, pediu-lhe:
—Eu quero que o senhor me dê a
cabeça de João Batista num prato.
Herodes ficou muito triste, mas por causa do
juramento que tinha feito diante de seus convidados, determinou que dessem à
moça o que ela tinha pedido, e mandou que
cortassem a cabeça de João Batista na prisão. A cabeça de João foi levada num prato e entregue
à jovem que, por sua vez, a entregou à mãe.
Mas o que
a vida do profeta João tem a ver com os cristãos de agora? Além de ser um
elemento chave no entendimento da missão de Jesus Cristo, a vida do profeta
João é um exemplo de coragem e também de submissão à vontade de Deus. A atuação
de João é um testemunho de que a verdade das escrituras é para todos, independentemente
de sua condição social. Ela nos revela também que pessoas justas e temente a
Deus podem sofrer perseguição por falarem a verdade das escrituras.
Publicado em por Marcelo Berti
2 Votes
Gaio Cecílio era filho de Lúcio Cecílio Cilo e nasceu em Novum Comum por volta do ano 61 dC. Sua mãe, Plínia Marcella era irmã de escritor e famoso enciclopedista Plínio, o Velho, a quem e Gaio a tal ponto admirava que sobre ele escreveu no livro conhecido como Naturalis Historia. Como seu pai morreu quando era jovem, Gaio possivelmente tenha vivido boa parte de sua infância e juventude com sua mãe.
A princípio fora educado em casa, mas posteriormente foi a Roma onde dedicou-se à retorica. Nesse período, aproximou-se de seu tio Plínio, que veio a falecer em função da erupção do vulcão Vesúvio. Com isso, descobriu que seu tio havia deixado suas posses com ele e que teria sido adotado pelo mesmo, o que fez com que mudasse seu nome para Gaio Plínio Cecílio Segundo, nome que deu origem à referência histórica que normalmente se atribui a ele: Plínio o Jovem.
Plínio é reconhecido como governador da Bitínia, na Ásia Menor (112 dC) no período do Imperador Trajano, embora tenha sido senador e proeminente advogado em Roma (VOORST, Robert E. Jesus outside the New Testament: An introduction to the ancient evidence. Eedermnans, 2000, pp.23). Sua fama foi assegurada por sua relação com o Imperador Trajano, a quem escreveu diversas cartas, das quais muitas sobrevivem até os dias de hoje. Sua escrita, muito precisa e elogiável, fez com que, segundo Voorst, Plínio carregasse a fama de ter inventado o estilo literário da carta. Habermas, por sua vez, cita F.F. Bruce o apresenta como “o maior escritor de cartas do mundo” e que suas cartas “ganharam o status de literatura clássica” (HABERMAS, Gary, Historical Jesus, College Press, 1996; pp.198).
Dos dez livros de cartas que se conhecem de Plínio, é apenas no décimo livro, mais precisamente na carta 96 é que encontramos algo sobre o cristianismo primitivo e Cristo. Como supõe-se que essas cartas tenha sido organizadas cronologicamente, essa declaração é normalmente definida por volta de 112 dC.
Nessa carta ele fala sobre o rápido crescimento do Cristianismo na província da Bitínia, seja nas regiões urbanas ou rurais. Ele descreve a situação com templos romanos (pagãos) abandonados de tal forma que o “negócio daqueles que vendiam forragens para os animais sacrificiais fora afetado” (BARNETT, Paul, Finding the historical Jesus, Eedermans, 2009, pp.60). Ele também afirma ter interrogado aqueles que haviam sido acusado de serem cristãos e sentenciados a morte por isso, para verificar se insistiam em sua afirmação de serem de fato cristãos, como ele mesmo afirma, observe:
“Esta foi a regra que eu segui diante dos que me foram deferidos como cristãos: perguntei a eles mesmos se eram cristãos; aos que respondiam afirmativamente, repeti uma segunda e uma terceira vez a pergunta, ameaçando-os com o suplício. Os que persistiram mandei executá-los pois eu não duvidava que, seja qual for a culpa, a teimosia e a obstinação inflexível deveriam ser punidas. Outros, cidadãos romanos portadores da mesma loucura, pus no rol dos que devem ser enviados a Roma” – (BOYLE, John Cork, ORRERY, The letters of Pliny the Younger: with observations on each letter, VOL.2, pp.426)
Plínio também fala de pessoas que haviam sido acusadas de serem cristãs, mas que assumiam que na verdade não eram, e a prova era adorar a imagem do Imperador bem como os deuses imperiais. Também exigia que esses acusados amaldiçoassem a Cristo, coisa que um cristão genuíno não seria capaz de fazer. Sobre esses “supostos” cristãos, Plínio atesta:
“Todos estes adoraram a tua imagem e as estátuas dos deuses e amaldiçoaram a Cristo, porém, afirmaram que a culpa deles, ou o erro, não passava do costume de se reunirem num dia fixo, antes do nascer do sol, para cantar um hino a Cristo como a um deus; de obrigarem-se, por juramento, a não cometer crimes, roubos, latrocínios e adultérios, a não faltar com a palavra dada e não negar um depósito exigido na justiça. Findos estes ritos, tinham o costume de se separarem e de se reunirem novamente para uma refeição comum e inocente, sendo que tinham renunciado à esta prática após a publicação de um edito teu onde, segundo as tuas ordens, se proibiam as associações secretas” (BOYLE, John Cork, ORRERY, The letters of Pliny the Younger: with observations on each letter, VOL.2, pp.427)
Plínio também fala sobre sobre duas escravas que eram consideradas “ministras”, nas quais não encontrou “nada além de uma superstição irracional e sem medida”. E em função disso suspendeu o inquérito pois precisava de um parecer específico de Trajano, como ele mesmo confessa:
“O assunto parece-me merecer a tua opinião, principalmente por causa do grande número de acusados. Há uma multidão de todas as idades, de todas as condições e dos dois sexos, que estão ou estarão em perigo, não apenas nas cidades mas também nas aldeias e campos onde se espalha o contágio dessa superstição; contudo, creio ser possível contê-la e exterminá-la” (BOYLE, John Cork, ORRERY, The letters of Pliny the Younger: with observations on each letter, VOL.2, pp.427-8)
Nas colocações de Plínio sobre o cristianismo primitivo em termos muito parecidos com os encontrados nos escritos de Tácito e Suetônio: para ele o cristianismo também era uma “superstição” “contagiante” que tinha condições de corromper o proceder romano. A autenticidade das cartas de Plínio não são contestadas, e portanto nelas encontramos mais um relato histórico sobre a historicidade de Cristo, e sobre ela Habermas conclui:
“(1) Cristo era adorado como Deus pelos antigos cristãos; (2) Plínio se refere posteriormente em sua cara que os ensinos de Cristo e seus seguidores eram excessivamente supersticiosos e contagiosos, como termo reminiscência de ambos, Tácito e Suetônio; (3) Os ensinos éticos de Cristo eram refletidos nos juramentos dos cristãos jamais seriam culpados pelos pecados mencionados nessa carta; (4) Provavelmente encontramos uma referência a instituição de Cristo da comunhão cristã celebrada na festa do amor, nas declarações de Plínio sobre a reunião deles para compartilhar comida. A referência aqui alude a acusação por parte dos não cristãos que os cristãos eram suspeitos de um ritual assassino e beber o sangue durante esses encontros, o que confirma nosso ponto de vista que a comunhão é o assunto a que Plínio se refere; (5) Há também uma possível referência ao Domingo na declaração de Plínio que os cristãos se encontravam em um dia específico” (HABERMAS, Gary, Historical Jesus, College Press, 1996; pp.199-200)
Uma revisão de Misquoting Jesus: The Story Behind Who Changed the Bible and Why1, deBart D. Ehrman
Para a maioria dos estudantes do Novo Testamento, um livro sobre crítica textual é uma real chatice. Os detalhes tediosos não são matéria para um bestseller. Mas desde a publicação em 1 de Novembro de 2005, Misquoting Jesus2 tem circulado mais e mais alto até o pico de vendas da Amazon. E já que Bart Ehrman, um dos líderes da América do Norte em crítica textual, apareceu em dois programas da NPR (o Diane Rehm Show e Fresh Air com Terry Gross) – ambos em um espaço de uma semana – ele tem estado entre os primeiro cinquenta mais vendidos na Amazon. Em menos de três meses, mais de 100000 cópias foram vendidas. Quando a entrevista de Neely Tucker a Ehrman no The Washington Post apareceu em 5 de Março deste ano as vendas do livro de Ehrman subiram ainda mais. O sr. Tucker falou de Ehrman como um “estudioso fundamentalista que vasculhou tanto as orígens do Cristianismo que ele perdeu sua fé.”3 Nove dias depois, Ehrman era a celebridade convidada no The Daily Show de Jon Stewart. Stewart disse que vendo a Bíblia como algo que foi deliberadamente corrompida por escribas ortodoxos fez da Bíblia “mais interessante… quase mais divina em alguns aspectos.” Stewart concluiu a entrevista declarando, “Eu realmente te parabenizo. É um baita de um livro!” Em menos de 48 horas, Misquoting Jesus chegou ao topo da Amazon, ainda que somente por um curto período. Dois meses depois e ainda está voando alto, ficando entre os 25. Ele “se tornou um de meus bestsellers mais improváveis do ano.”4Nada mal para um tomo acadêmico em uma matéria “chata”!
Porque todo o alvoroço? Bem, por uma coisa, Jesus vende. Mas não o Jesus da Bíblia. O Jesus que vende é aquele que é saboroso ao homem pós-moderno. E com um livro entituladoMisquoting Jesus: The Story Behind Who Changed the Bible and Why, uma audiência disponível foi criada através da esperança que haveria novas evidências que o Jesus bíblico é uma imaginação. Ironicamente, quase nenhuma das variantes que Ehrman discute envolvepalavras de Jesus. O livro simplesmente não entrega o que o título promete. Ehrman preferiuLost in Transmission, mas a publicadora achou que tal livro seria percebido pelo pessoal de Barnes e Noble como relacionado a corridas de stock car! Mesmo que Ehrman não tenha escolhido o título resultante, ele foi uma jogada de marketing.
Mais importante, este livro vende porque ele apela ao cético que quer razões para não acreditar, que considera a Bíblia um livro de mitos. É uma coisa dizer que as histórias na Bíblia são lenda; outra bem diferente é dizer que muitas delas foram adicionadas séculos depois. Apesar de Ehrman não dizer bem isto, ele deixa a impressão que a forma original do Novo Testamento era bem diferente dos manuscritos que nós lemos agora.
De acordo com Ehrman, este é o primeiro livro escrito sobre a crítica textual do Novo Testamento – uma disciplina que tem circulado por quase 300 anos – para uma audiência leiga.5 Aparentemente ele não conta os vários livros escritos por advogados da KJV Only, ou os livros que interagem com eles. Parece que Ehrman quer dizer que o seu é o primeiro livro sobre a disciplina geral do criticismo textual do Novo Testamento escrito por um crítico textual de boa fé para leitores leigos. Isto é muito provavelmente verdade.
Crítica Textual 101
Misquoting Jesus em grande parte é simplesmente crítica textual 101 do Novo Testamento. Há sete capítulos com uma introdução e conclusão. A maior parte do livro (capítulos 1–4) é basicamente uma introdução popular ao campo, e uma muito boa nisto. Ele introduz os leitores ao fascinante mundo da atividade dos escribas, o processo de canonização, e textos impressos do Novo Testamento Grego. Ele discute o método básico de ecleticismo racional. Tudo através destes quatro capítulos, vários fragmentos – leituras variantes, citações dos Pais, debates entre Protestantes e Católicos – são discutidos, familiarizando o leitor com alguns dos desafios do secreto campo da crítica textual.
Capítulo 1 (“Os princípios das Escrituras Cristãs”) endereça os motivos pelos quais os livros do Novo Testamento foram escritos, como eles foram recebidos e quando eles foram aceitos como Escritura.
Capítulo 2 (“Os copistas e os Primeiros Escritos Cristãos”) lida com as mudanças do texto feitas pelos escribas, tanto intencionais como não intencionais. Aqui Ehrman mistura informações da crítica textual padrão com suas própria interpretação, uma interpretação que de nenhuma forma é compartilhada por todos os críticos textuais, nem mesmo a maioria deles. Em essência, ele pinta uma figura sem vida da atividade dos escribas6, deixando o descuidado leitor assumir que nós não temos nenhuma chance de recuperar as palavras originais do Novo Testamento.
Capítulo 3 (“Textos do Novo Testamento”) e capítulo 4 (“A Questão das Origens”) nos leva de Erasmo e do primeiro Novo Testamento Grego ao texto de Westcott e Hort. Discutidos são os maiores estudiosos dos séculos dezesseis até dezenove. Este é o material mais objetivo do livro e fornece uma leitura fascinante. Mas mesmo aqui, Ehrman injeta seu próprio ponto de vista por sua seleção de material. Por exemplo, ao discutir o papel que Bengel teve na história da crítica textual (109-112), Ehrman dá a este piedoso conservador alemão alto valor como estudioso: ele era um “extremamente cuidadoso intérprete do texto bíblico” (109); “Bengel estudou tudo intensamente” (111). Ehrman fala sobre as importantes descobertas de Bengel na crítica textual (111-12), mas não menciona que ele foi o primeiro importante estudioso a articular a doutrina da ortodoxia das variantes. Esta é uma omissão curiosa porque, de um lado, Ehrman está bem ciente deste fato, pois na quarta edição de The Text of the New Testament, agora por Bruce Metzger e Bart Ehrman,7 que apareceu alguns meses antes deMisquoting Jesus, a nota dos autores, “CCom energia e perseverança característica, [Bengel] procurou todas as edições, manuscritos e antigas traduções disponíveis a ele. Depois de extenso estudo, ele chegou à conclusão que as leituras variantes eram menores em número que poderia ter sido esperado e que elas não ameaçam nenhum artigo da doutrina evangélica.”8 De outro lado, Ehrman menciona J. J. Wettstein, um contemporâneo de Bengel, que, na tenra idade de vinte anos assumiu que estas variantes “podem não ter nenhum efeito na confiabilidade ou integridade das Escrituras,”9 mas que anos depois, após cuidadoso estudo do texto, Wettstein mudou suas visões depois que ele “começou a pensar seriamente sobre suas próprias convicções teológicas.”10 Alguém é tentado a pensar que Ehrman possa ver um paralelo entre ele mesmo e Wettstein: como Wettstein, Ehrman começou como um evangélico quando no colégio, mas mudou suas visões sobre o texto e teologia em seus anos mais maduros.11 Mas o modelo que Wettstein fornece – um sóbrio estudioso que chega a conclusões diferentes – está calmamente ultrapassado.
O que também é curiosamente deixado de fora são as motivações de Tischendorf para seu incansável trabalho de descobrir manuscritos e de publicar uma edição crítica do texto grego com um aparato completo. Tischendorf é reconhecido amplamente como o mais ativo crítico textual de todos os tempos. E o que o motivou foi o desejo de recuperar a forma mais antiga do texto – um texto que ele acreditaria vindicar a ortodoxia cristã contra o ceticismo hegeliano de F. C. Baur e seus seguidores. Nada disto é mencionado em Misquoting Jesus.
Além da seletividade a respeito de estudiosos e suas opiniões, estes quatro capítulos envolvem duas curiosas omissões. Primeiro, há quase nenhuma discussão sobre os vários manuscritos. Équase como se a evidência externa fosse um não-inicializador para Ehrman. Mais, assim como ele ilumina seus leitores leigos sobre a disciplina, o fato de que ele não dá a eles os detalhes sobre quais manuscritos são mais confiáveis, velhos, etc., o permite controlar o fluxo de informações. Repetidamente eu fui frustado em minha leitura do livro porque ele falou de várias leituras sem dar muitas, se alguma, das informações que dão suporte a elas. Mesmo em seu terceiro capítulo – “Textos do Novo Testamento: Edições, Manuscritos, e Diferenças” – há discussão mínima dos manuscritos, e nenhum dos códices individuais. Nas duas páginas que lidam especificamente com os manuscritos, Ehrman fala somente sobre seus números, natureza e variantes.12
Segundo, Ehrman representa exageradamente a qualidade das variantes enquanto sublinha sua quantidade. Ele diz, “Há mais variações entre nossos manuscritos que número de palavras no Novo Testamento.”13 Em outro lugar ele declara que o número de variações é tão alto quanto 400,000.14 Isto é bem verdade, mas por si só é enganoso. Qualquer um que ensine crítica textual do Novo Testamento sabe que este fato é somente parte da figura e que, se deixado balançando diante do leitor sem explicação, é uma visão distorcida. Uma vez que é revelado que a grande maioria destas variantes são inconsequentes – envolvendo diferenças de escrita que sequer podem ser traduzidas, artigos com nomes próprios, mudança na ordem das palavras e coisas parecidas – e que somente uma pequena minoria das variantes alteram o significado do texto, toda a figura começa a ser focada. De fato, somente cerca de 1% das variantes textuais são tanto significativas e viáveis.15 A impressão que Ehrman algumas vezes dá através do livro – e repete em entrevistas16 – é a total incerteza sobre o palavreado original,17 uma visão que é de longe mais radical do que a que ele realmente abraça.18
Nós podemos ilustrar as coisas desta forma. Há aproximadamente 138,000 palavras no Novo Testamento grego. As variantes nos manuscritos, versões e Pais constituem quase três vezes este número. A primeira vista, esta é uma quantidade devastadora. Mas à luz das possibilidades, é na verdade bem trivial. Por exemplo, considere as formas que o grego pode dizer “Jesus ama Paulo”:
1. ᾿Ιησοῦς ἀγαπᾷ Παῦλον
2. ᾿Ιησοῦς ἀγαπᾷ τὸν Παῦλον
3. ὁ ᾿Ιησοῦς ἀγαπᾷ Παῦλον
4. ὁ ᾿Ιησοῦς ἀγαπᾷ τὸν Παῦλον
5. Παῦλον ᾿Ιησοῦς ἀγαπᾷ
6. τὸν Παῦλον ᾿Ιησοῦς ἀγαπᾷ
7. Παῦλον ὁ ᾿Ιησοῦς ἀγαπᾷ
8. τὸν Παῦλον ὁ ᾿Ιησοῦς ἀγαπᾷ
9. ἀγαπᾷ ᾿Ιησοῦς Παῦλον
10. ἀγαπᾷ ᾿Ιησοῦς τὸν Παῦλον
11. ἀγαπᾷ ὁ ᾿Ιησοῦς Παῦλον
12. ἀγαπᾷ ὁ ᾿Ιησοῦς τὸν Παῦλον
13. ἀγαπᾷ Παῦλον ᾿Ιησοῦς
14. ἀγαπᾷ τὸν Παῦλον ᾿Ιησοῦς
15. ἀγαπᾷ Παῦλον ὁ ᾿Ιησοῦς
16. ἀγαπᾷ τὸν Παῦλον ὁ ᾿Ιησοῦς
Estas variações representam apenas uma pequena fração das possibilidades. Se a sentença usar φιλεῖ ao invés de ἀγαπᾷ, por exemplo, ou se ela começar com uma conjunção tal qual δεv,καιv, ou μέν, as potenciais variações crescerão exponencialmente. Fatore em sinônimos (tais quais κύριος por ᾿Ιησοῦς), diferenças de escrita
Por Paul L. Maier, o Professor Russell H. Seibert Professor de História Antiga, da Western Michigan University
Flávio Josefo (37 dC -. C 100) foi um historiador judeu nascido em Jerusalém quatro anos após a crucificação de Jesus de Nazaré, na mesma cidade. Devido a essa proximidade com Jesus em termos de tempo e lugar, seus escritos têm uma qualidade de testemunha “ocular” uma vez que eles se relacionam com todo o fundo cultural da era do Novo Testamento. Mas seu escopo é muito maior do que este, abrangendo também o mundo do Antigo Testamento. Suas duas maiores obras são Antiguidades Judaicas, revelando a história hebraica desde a Criação até o início da grande guerra com Roma em 66 d.C., enquanto a sua Guerra Judaica , embora tenha sido escrito primeiro, traz o registro da destruição de Jerusalém e da queda de Masada em AD 73.
Josefo é a fonte primária mais abrangente sobre a história judaica que sobreviveu desde a antiguidade, tendo permanecido praticamente intacta apesar da sua natureza volumosa (o equivalente a 12 volumes). Por causa do patrocínio imperial pelos imperadores Flavian em Roma, Vespasiano, Tito e Domiciano - Josefo foi capaz de gerar incríveis detalhes em seus registros, um “luxo” que foi negado aos escritores dos Evangelhos. Eles parecem ter sido limitados a um rolo cada uma vez que os primeiros cristãos não eram ricos. Assim, Josefo sempre foi considerado um recurso extra-bíblico crucial, já que seus escritos não apenas correlacionam bem com o Antigo e o Novo Testamento, mas muitas vezes fornecem evidências adicionais sobre personalidades, como Herodes, o Grande, e sua dinastia, João Batista, Tiago, o meio-irmão de Jesus, os sumos sacerdotes Anás e Caifás e seu clã, Pôncio Pilatos, e outros.
Neste contexto, devemos certamente esperar que ele iria se referir a Jesus de Nazaré, e ele faz -duas vezes, na verdade. Em Antiguidades 18:63, no meio de informações sobre Pôncio Pilatos (AD, 26-36), Josefo oferece a maior referência secular a Jesus de qualquer fonte do primeiro século. Mais tarde, quando ele relata eventos da administração do governador romano Albino (AD 62-64), em Antiguidades 20:200, ele volta a mencionar Jesus em conexão com a morte do meio-irmão de Jesus, Tiago, o Justo, de Jerusalém. Essas passagens, juntamente com outrasreferências não-bíblicas e não-cristãs a Jesus de fontes do primeiro século - entre elas Tácito (Anais 15:44), Suetônio (Cláudio 25), e Plínio, o Jovem (carta para Trajano ) - prova conclusivamente que qualquer negação da historicidade de Jesus é divagar sensacionalismo para desinformados e/ou desonestos.
Uma vez que as referências acima a Jesus são embaraçosas para tal, elas foram atacadas por séculos, especialmente as duas instâncias de Josefo, que provocaram uma grande quantidade da literatura acadêmica. Elas constituem o maior bloco de evidências do primeiro século para Jesus fora de fontes bíblicas ou cristãs, e podem muito bem ser a razão que as obras vastas de Josefo sobreviveram quase intactas a transmissão de manuscritos através dos séculos, quando outras grandes obras da antiguidade foram totalmente perdidas. Examinemos cada um, por sua vez.
Antiguidades 18:63
O texto padrão de Josefo diz o seguinte:
Sobre este tempo viveu Jesus, um homem sábio, se é que podemos chama-lo de um homem. Pois ele foi o realizador de feitos extraordinários e era um professor daqueles que aceitam a verdade com prazer. Ele conquistou muitos judeus e muitos dos gregos. Ele era o Messias. Quando ele foi indiciado pelos principais homens entre nós e Pilatos condenou-o para ser crucificado, aqueles que tinham vindo a amá-lo originalmente não deixará de fazê-lo, pois ele lhes apareceu no terceiro dia ressuscitou, como os profetas de a Divindade havia predito essas e inúmeras outras coisas maravilhosas a respeito dele, e da tribo dos cristãos, assim nomeada após ele, não desapareceu até hoje. (Todas as citações de Flávio Josefo, exceto o próximo, são do PL Maier, ed / trans..Josefo-As obras essenciais (Grand Rapids: Kregel Publications, 1994).
Embora esta passagem encontra-se assim redigida nos manuscritos de Josefo do terceiro século (tão cedo quanto o historiador da igreja Eusébio), os estudiosos já suspeitavam de uma interpolação cristã, uma vez que Josefo não poderia ter acreditado que Jesus era o Messias ou em sua ressurreição e manter-se, como ele fez, um judeu não-cristão. Em 1972, contudo, o professor Schlomo Pines, da Universidade Hebraica de Jerusalém anunciou a descoberta de um tradição manuscrita diferente dos escritos de Josefo escrita no décimo século pelo historiador melquita Agapius, que diz o seguinte em Antiguidades 18:63:
Neste momento, havia um homem sábio chamado Jesus, e sua conduta era boa, e ele era conhecido por ser virtuoso. Muitas pessoas entre os judeus e as outras nações se tornaram seus discípulos. Pilatos condenou-o para ser crucificado e morrer. Mas aqueles que se tornaram seus discípulos não abandonaram seu discipulado. Eles relataram que ele lhes havia aparecido três dias após sua crucificação e que ele estava vivo. Assim, ele talvez fosse o Messias, sobre quem os profetas relataram maravilhas. E a tribo dos cristãos, assim nomeada após ele, não desapareceu até hoje.
Aqui, claramente, é a linguagem que um judeu poderia ter escrito sem a conversão ao cristianismo. (Schlomo Pines,An Arabic Version of the Testimonium Flavianum and its Implications [Jerusalem: Israel Academy of Sciences and Humanities, 1971.])
Estudiosos se dividem em três campos básicos sobre Antiguidades 18:63:
1) A passagem original é totalmente autêntica, uma posição minoritária;
2) é inteiramente uma falsificação cristã - uma posição minoritária ainda muito menor, e
3) que contém interpolações cristãs no que era o material original de Josefo, material autêntico sobre Jesus, a posição da grande maioria, hoje, especialmente tendo em vista o texto Agapian (imediatamente acima), que não mostra sinais de interpolação.
Josefo deve ter mencionado Jesus no material do núcleo autêntico 18:63 uma vez que esta passagem está presente em todos os manuscritos gregos de Josefo, e a versão Agapian concorda bem com sua gramática e vocabulário utilizada em outros lugares. Além disso, Jesus é retratado como um "homem sábio" [sophos aner], uma frase não utilizada por cristãos, mas empregada por Josefo para personalidades como Davi e Salomão na Bíblia hebraica.
Além disso, sua afirmação de que Jesus conquistou "muitos dos gregos" não está fundamentada no Novo Testamento e, portanto, dificilmente seria uma interpolação cristã, mas sim algo que Josefo teria notado em seus dias. Finalmente, o fato de que a segunda referência a Jesus no Antiguidades 20:200, que segue, apenas o chama de Christos [Messias] sem mais explicações sugere que a identificação dele mais completa, já havia ocorrido anteriormente. Se Jesus apareceu pela primeira vez em um ponto mais tarde, no registro de Josefo, ele muito provavelmente teria introduzido uma frase como "... irmão de um certo Jesus, que foi chamado o Cristo."
Antiguidades 20:200
Esta é uma passagem extremamente importante, pois tem tantos paralelos impressionantes para o que aconteceu na Sexta-feira da paixão, e ainda assim parece ser largamente ignorado entre os estudiosos revisionistas do Novo Testamento. Ela fala da morte do meio-irmão de Jesus, Tiago, o Justo, de Jerusalém, sob o sumo sacerdote Ananus, filho do ex-sumo sacerdote Anás e cunhado de Caifás, ambos bem conhecidos a partir dos Evangelhos. O texto de Josefo diz o seguinte:
Tendo tal caráter ["imprudência e ousadia" no contexto], Ananus pensou que com a morte de Festus e com Albino ainda no caminho, ele teria a oportunidade adequada. Convocando os juízes do Sinédrio, ele trouxe diante deles o irmão de Jesus, que foi chamado de Cristo, cujo nome era Tiago e alguns outros. Ele os acusou de terem transgredido a lei e os entregou para ser apedrejados. Mas dos moradores da cidade que eram consideradas os mais justos e que estavam em estrita observância da lei ficaram ofendidos com isso. Assim, eles secretamente contataram o rei [Herodes Agripa II], instando-o a ordenar Ananus a desistir de quaisquer outras ações dessas, pois ele não tinha justificado naquilo que já tinha feito. Alguns deles foram até mesmo ao encontro de Albinus, que estava a caminho de Alexandria, e informaram-lhe que Ananus não tinha autoridade para convocar o Sinédrio sem o seu consentimento. Convencido por essas palavras, Albinus escreveu com raiva para Ananus, ameaçando-o com uma punição. E o rei Agripa, por causa disso, o depôs do sumo sacerdócio, no qual ele havia governado por três meses.
Esta, segunda referência de Josefo a Jesus, não mostra qualquer adulteração no texto e está presente em todos os manuscritos de Josefo. Se tivesse havido uma interpolação cristã aqui, mais material sobre Tiago e Jesus teria sem dúvida sido apresentado além dessa breve passagem. Tiago provavelmente teria sido envolto em linguagem laudatória e “estilada” ",o irmão do Senhor", como o Novo Testamento define ele, ao invés de "o irmão de Jesus." Nem poderia o Novo Testamento ter servido como fonte de Josefo, uma vez que não fornece nenhum detalhe sobre a morte de Tiago. Para Josefo definir Jesus mais para frente como aquele "que foi chamado de Christos " era credível e mesmo necessário, tendo em conta os outros vinte “Jesuses” que ele cita em suas obras.
Assim, a grande maioria dos acadêmicos contemporâneos considera esta passagem como genuína em sua totalidade, e concordam com a classificação do especialista em Josepo, Louis H. Feldman, em sua notação na Biblioteca Clássica Loeb edição de Josefo: "... poucos têm dúvidas sobre a autenticidade desta passagem de Tiago"(Louis H. Feldman, tr. Josephus , IX [Cambridge, MA: Harvard University Press, 1965], 496).
A preponderância da evidência, então, sugere fortemente que, de fato, Josefo menciona Jesus em ambas as passagens. Ele fez isso de uma maneira totalmente congruente com os retratos do Novo Testamento de Cristo, e sua descrição, do ponto de vista de um não-cristão, parece extremamente justa, especialmente tendo em vista sua tendência conhecida de “taxar” messias falsos como miseráveis que induziam ao erro as pessoas e trouxeram em guerra aos romanos.
Além disso, sua segunda citação relacionada com as atitudes do sumo sacerdote e do Sinédrio contra a do governador romano espelha perfeitamente as versões dos evangelhos dos dois lados opostos no evento Sexta-feira da Paixão. E essa evidência extrabíblica não vem de uma fonte cristã tentando fazer “Os Evangelhos” ter a aparência de bom, mas de um autor totalmente judaico que nunca se converteu ao cristianismo.
Para uma discussão mais aprofundada de Josefo e sua importância para a pesquisa bíblica, consulte Paul L. Maier, ed / trans, Josephus – The Essential Works (Grand Rapids: Kregel Publications, 1994).
Flávio Josefo (37 dC -. C 100) foi um historiador judeu nascido em Jerusalém quatro anos após a crucificação de Jesus de Nazaré, na mesma cidade. Devido a essa proximidade com Jesus em termos de tempo e lugar, seus escritos têm uma qualidade de testemunha “ocular” uma vez que eles se relacionam com todo o fundo cultural da era do Novo Testamento. Mas seu escopo é muito maior do que este, abrangendo também o mundo do Antigo Testamento. Suas duas maiores obras são Antiguidades Judaicas, revelando a história hebraica desde a Criação até o início da grande guerra com Roma em 66 d.C., enquanto a sua Guerra Judaica , embora tenha sido escrito primeiro, traz o registro da destruição de Jerusalém e da queda de Masada em AD 73.
Josefo é a fonte primária mais abrangente sobre a história judaica que sobreviveu desde a antiguidade, tendo permanecido praticamente intacta apesar da sua natureza volumosa (o equivalente a 12 volumes). Por causa do patrocínio imperial pelos imperadores Flavian em Roma, Vespasiano, Tito e Domiciano - Josefo foi capaz de gerar incríveis detalhes em seus registros, um “luxo” que foi negado aos escritores dos Evangelhos. Eles parecem ter sido limitados a um rolo cada uma vez que os primeiros cristãos não eram ricos. Assim, Josefo sempre foi considerado um recurso extra-bíblico crucial, já que seus escritos não apenas correlacionam bem com o Antigo e o Novo Testamento, mas muitas vezes fornecem evidências adicionais sobre personalidades, como Herodes, o Grande, e sua dinastia, João Batista, Tiago, o meio-irmão de Jesus, os sumos sacerdotes Anás e Caifás e seu clã, Pôncio Pilatos, e outros.
Neste contexto, devemos certamente esperar que ele iria se referir a Jesus de Nazaré, e ele faz -duas vezes, na verdade. Em Antiguidades 18:63, no meio de informações sobre Pôncio Pilatos (AD, 26-36), Josefo oferece a maior referência secular a Jesus de qualquer fonte do primeiro século. Mais tarde, quando ele relata eventos da administração do governador romano Albino (AD 62-64), em Antiguidades 20:200, ele volta a mencionar Jesus em conexão com a morte do meio-irmão de Jesus, Tiago, o Justo, de Jerusalém. Essas passagens, juntamente com outrasreferências não-bíblicas e não-cristãs a Jesus de fontes do primeiro século - entre elas Tácito (Anais 15:44), Suetônio (Cláudio 25), e Plínio, o Jovem (carta para Trajano ) - prova conclusivamente que qualquer negação da historicidade de Jesus é divagar sensacionalismo para desinformados e/ou desonestos.
Uma vez que as referências acima a Jesus são embaraçosas para tal, elas foram atacadas por séculos, especialmente as duas instâncias de Josefo, que provocaram uma grande quantidade da literatura acadêmica. Elas constituem o maior bloco de evidências do primeiro século para Jesus fora de fontes bíblicas ou cristãs, e podem muito bem ser a razão que as obras vastas de Josefo sobreviveram quase intactas a transmissão de manuscritos através dos séculos, quando outras grandes obras da antiguidade foram totalmente perdidas. Examinemos cada um, por sua vez.
Antiguidades 18:63
O texto padrão de Josefo diz o seguinte:
Sobre este tempo viveu Jesus, um homem sábio, se é que podemos chama-lo de um homem. Pois ele foi o realizador de feitos extraordinários e era um professor daqueles que aceitam a verdade com prazer. Ele conquistou muitos judeus e muitos dos gregos. Ele era o Messias. Quando ele foi indiciado pelos principais homens entre nós e Pilatos condenou-o para ser crucificado, aqueles que tinham vindo a amá-lo originalmente não deixará de fazê-lo, pois ele lhes apareceu no terceiro dia ressuscitou, como os profetas de a Divindade havia predito essas e inúmeras outras coisas maravilhosas a respeito dele, e da tribo dos cristãos, assim nomeada após ele, não desapareceu até hoje. (Todas as citações de Flávio Josefo, exceto o próximo, são do PL Maier, ed / trans..Josefo-As obras essenciais (Grand Rapids: Kregel Publications, 1994).
Embora esta passagem encontra-se assim redigida nos manuscritos de Josefo do terceiro século (tão cedo quanto o historiador da igreja Eusébio), os estudiosos já suspeitavam de uma interpolação cristã, uma vez que Josefo não poderia ter acreditado que Jesus era o Messias ou em sua ressurreição e manter-se, como ele fez, um judeu não-cristão. Em 1972, contudo, o professor Schlomo Pines, da Universidade Hebraica de Jerusalém anunciou a descoberta de um tradição manuscrita diferente dos escritos de Josefo escrita no décimo século pelo historiador melquita Agapius, que diz o seguinte em Antiguidades 18:63:
Neste momento, havia um homem sábio chamado Jesus, e sua conduta era boa, e ele era conhecido por ser virtuoso. Muitas pessoas entre os judeus e as outras nações se tornaram seus discípulos. Pilatos condenou-o para ser crucificado e morrer. Mas aqueles que se tornaram seus discípulos não abandonaram seu discipulado. Eles relataram que ele lhes havia aparecido três dias após sua crucificação e que ele estava vivo. Assim, ele talvez fosse o Messias, sobre quem os profetas relataram maravilhas. E a tribo dos cristãos, assim nomeada após ele, não desapareceu até hoje.
Aqui, claramente, é a linguagem que um judeu poderia ter escrito sem a conversão ao cristianismo. (Schlomo Pines,An Arabic Version of the Testimonium Flavianum and its Implications [Jerusalem: Israel Academy of Sciences and Humanities, 1971.])
Estudiosos se dividem em três campos básicos sobre Antiguidades 18:63:
1) A passagem original é totalmente autêntica, uma posição minoritária;
2) é inteiramente uma falsificação cristã - uma posição minoritária ainda muito menor, e
3) que contém interpolações cristãs no que era o material original de Josefo, material autêntico sobre Jesus, a posição da grande maioria, hoje, especialmente tendo em vista o texto Agapian (imediatamente acima), que não mostra sinais de interpolação.
Josefo deve ter mencionado Jesus no material do núcleo autêntico 18:63 uma vez que esta passagem está presente em todos os manuscritos gregos de Josefo, e a versão Agapian concorda bem com sua gramática e vocabulário utilizada em outros lugares. Além disso, Jesus é retratado como um "homem sábio" [sophos aner], uma frase não utilizada por cristãos, mas empregada por Josefo para personalidades como Davi e Salomão na Bíblia hebraica.
Além disso, sua afirmação de que Jesus conquistou "muitos dos gregos" não está fundamentada no Novo Testamento e, portanto, dificilmente seria uma interpolação cristã, mas sim algo que Josefo teria notado em seus dias. Finalmente, o fato de que a segunda referência a Jesus no Antiguidades 20:200, que segue, apenas o chama de Christos [Messias] sem mais explicações sugere que a identificação dele mais completa, já havia ocorrido anteriormente. Se Jesus apareceu pela primeira vez em um ponto mais tarde, no registro de Josefo, ele muito provavelmente teria introduzido uma frase como "... irmão de um certo Jesus, que foi chamado o Cristo."
Antiguidades 20:200
Esta é uma passagem extremamente importante, pois tem tantos paralelos impressionantes para o que aconteceu na Sexta-feira da paixão, e ainda assim parece ser largamente ignorado entre os estudiosos revisionistas do Novo Testamento. Ela fala da morte do meio-irmão de Jesus, Tiago, o Justo, de Jerusalém, sob o sumo sacerdote Ananus, filho do ex-sumo sacerdote Anás e cunhado de Caifás, ambos bem conhecidos a partir dos Evangelhos. O texto de Josefo diz o seguinte:
Tendo tal caráter ["imprudência e ousadia" no contexto], Ananus pensou que com a morte de Festus e com Albino ainda no caminho, ele teria a oportunidade adequada. Convocando os juízes do Sinédrio, ele trouxe diante deles o irmão de Jesus, que foi chamado de Cristo, cujo nome era Tiago e alguns outros. Ele os acusou de terem transgredido a lei e os entregou para ser apedrejados. Mas dos moradores da cidade que eram consideradas os mais justos e que estavam em estrita observância da lei ficaram ofendidos com isso. Assim, eles secretamente contataram o rei [Herodes Agripa II], instando-o a ordenar Ananus a desistir de quaisquer outras ações dessas, pois ele não tinha justificado naquilo que já tinha feito. Alguns deles foram até mesmo ao encontro de Albinus, que estava a caminho de Alexandria, e informaram-lhe que Ananus não tinha autoridade para convocar o Sinédrio sem o seu consentimento. Convencido por essas palavras, Albinus escreveu com raiva para Ananus, ameaçando-o com uma punição. E o rei Agripa, por causa disso, o depôs do sumo sacerdócio, no qual ele havia governado por três meses.
Esta, segunda referência de Josefo a Jesus, não mostra qualquer adulteração no texto e está presente em todos os manuscritos de Josefo. Se tivesse havido uma interpolação cristã aqui, mais material sobre Tiago e Jesus teria sem dúvida sido apresentado além dessa breve passagem. Tiago provavelmente teria sido envolto em linguagem laudatória e “estilada” ",o irmão do Senhor", como o Novo Testamento define ele, ao invés de "o irmão de Jesus." Nem poderia o Novo Testamento ter servido como fonte de Josefo, uma vez que não fornece nenhum detalhe sobre a morte de Tiago. Para Josefo definir Jesus mais para frente como aquele "que foi chamado de Christos " era credível e mesmo necessário, tendo em conta os outros vinte “Jesuses” que ele cita em suas obras.
Assim, a grande maioria dos acadêmicos contemporâneos considera esta passagem como genuína em sua totalidade, e concordam com a classificação do especialista em Josepo, Louis H. Feldman, em sua notação na Biblioteca Clássica Loeb edição de Josefo: "... poucos têm dúvidas sobre a autenticidade desta passagem de Tiago"(Louis H. Feldman, tr. Josephus , IX [Cambridge, MA: Harvard University Press, 1965], 496).
A preponderância da evidência, então, sugere fortemente que, de fato, Josefo menciona Jesus em ambas as passagens. Ele fez isso de uma maneira totalmente congruente com os retratos do Novo Testamento de Cristo, e sua descrição, do ponto de vista de um não-cristão, parece extremamente justa, especialmente tendo em vista sua tendência conhecida de “taxar” messias falsos como miseráveis que induziam ao erro as pessoas e trouxeram em guerra aos romanos.
Além disso, sua segunda citação relacionada com as atitudes do sumo sacerdote e do Sinédrio contra a do governador romano espelha perfeitamente as versões dos evangelhos dos dois lados opostos no evento Sexta-feira da Paixão. E essa evidência extrabíblica não vem de uma fonte cristã tentando fazer “Os Evangelhos” ter a aparência de bom, mas de um autor totalmente judaico que nunca se converteu ao cristianismo.
Para uma discussão mais aprofundada de Josefo e sua importância para a pesquisa bíblica, consulte Paul L. Maier, ed / trans, Josephus – The Essential Works (Grand Rapids: Kregel Publications, 1994).
Muitos leigos e estudiosos, por vezes, criticam a autenticidade ou historicidade dos livros do Novo Testamento e a historicidade de Jesus. Essas críticas, muitas vezes são infundadas, quando muito, são um discurso perpassado como verdade nos círculos acadêmicos e em artigos que tratam da temática.
Algumas dessas críticas são direcionadas aos relatos dos milagres e outros questionam até mesmo a existência de Jesus. O argumento desses críticos é que somente a Bíblia, mais especificamente, o Novo Testamento, falam sobre Jesus e que esses relatos não são de confiança uma vez que podem ter sido alterados pelos fundadores dessa religião.
É objetivo desse artigo apenas demonstrar que outras fontes históricas do período dos escritos do Novo Testamento também citam Jesus, atestando, com isso, a historicidade dos relatos neotestamentários. Utilizaremos, para tanto, a pesquisa feita pelo doutor, professor e estudioso do Novo Testamento H. Wayne House esboçada na obra O Jesus que nunca existiu. Devemos levar em consideração que os livros do Novo Testamento foram escritos num intervalo de aproximadamente 100 anos, ou seja, séculos I e II.
O QUE AS FONTES ROMANAS DISSERAM SOBRE JESUS
Apesar de haverem fontes judaicas e romanas contemporâneas aos escritos do Novo Testamento, elencamos aqui algumas das fontes de origem romana.
Tácito (c. 56 - c. 117 d.C.). Tácito, um historiador romano do século I e início do século II, era um crítico severo de Nero. Tácito afirma que Nero tentou culpar os cristãos da cidade de Roma pelo incêndio (64 d. C.). E assim, descobrimos que esse autor se refere a Cristo no livro XV, capítulo 47 dos Annals of imperial Rome [Anais da Roma imperial]: "Christus [Cristo], o homem que deu origem a esse grupo, foi executado no reinado de Tibério pelo procurador da judeia, Pôncio Pilatos", relatou Tácito.
Plínio, o jovem (112 d. C.). Plínio era governador na província romana de Bitínia, na Turquia moderna. Por alguma razão, certo número de cristãos foi trazido para a corte de Plínio. As acusações iniciais não são conhecidas. Para resolver a questão, Plínio buscou uma resposta com seu amigo Trajano, o imperador (Plínio. Epistle to Trajan 10.96 Radice, LCL). Entre outras coisas, ele disse que, antes de condená-los, deu-lhes a chance de desistir de sua crença para que adorassem ao imperador, e que esse cristãos confessavam "Cristo como um deus". Trajano respondeu à pergunta de seu governador dizendo que, realmente, os cristãos têm de ter uma chance de desisti de sua crença.
Celso. Era um típico orador do século II que fala a favor do paganismo e tinha apenas avaliações negativas do cristianismo. Ele escreveu The true word [A verdadeira palavra], em 178 d. C., mas, infelizmente, essa obra não está mais disponível. Entretanto, podemos determinar algumas das opiniões de Celso sobre Cristo ao observá-las no texto de Orígenes, Contra Celso:
1:28 - Jesus inventou que nasceu de uma virgem, pois, na verdade, era filho ilegítimo. Ele conseguiu seus poderes mágicos no Egito, [...] e Jesus afirmava falsamente que era Deus.
4:14 - Se fosse para Deus vir habitar em meio aos homens, a natureza divina tinha de ser alterada.
6:78 - Se Deus desejasse resgatar todas as pessoas, por que ele viria para apenas um recanto do mundo?
Fica claro que Celso, embora tenha rejeitado Jesus, acreditava que este afirmou ser o Deus encarnado.
Certamente, não existem a quantidade e a qualidade de afirmações que gostaríamos de ter, mas isso não é de surpreender. Jesus, nessas fontes, era visto como um personagem histórico que teve de ser levado em consideração por causa do crescimento do cristianismo, que nasceu da crença nele, mas ele não foi considerado relevante na visão geral da História. A ironia é que ele se tornou muito mais relevante que aqueles escritores romanos e rabinos judeus que fizeram menção a ele, e os escritos deles são conhecidos, em grande parte, por causa das breves referências que fizeram a esse mestre judeu que foi crucificado, afirmou Wayne House.
Por Johnnys Eliel



